Arquilivro

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(Excerto)

“A PRAIA DOS PESCADORES

Uma vez, quando tinha aí uns treze anos, um agente da guarda levou-me de jeep até casa depois de me ter vomitado todo na praia dos pescadores. Lembro-me da cara dos meus pais quando abriram a porta e viram-me ao lado do guarda, com os olhos em lágrimas, cheios de remorsos, e a camisola manchada de baba. Pensavam eles que eu estava na cama a dormir. Durante a tarde um amigo do meu irmão, mais velho, havia me contado que de vez em quando, durante a noite, desembarcavam naquela praia contrabando  que os pescadores apanhavam dos navios em alto mar, vindos não sabia de onde. Lembro-me de perguntar como era isso possível visto que existia um posto da Guarda Fiscal ao cimo da arriba, à boca da estrada que descia à praia. Ele então explicou-me que os guardas eram pagos para se calarem e que toda a gente lá na terra sabia disso; que bastava ver os carrões com que eles se passeavam ao fim de semana.

A praia dos pescadores ficava entre a praia do Norte e a praia do Sul, que só eram praias por vontade do povo da terra, sobretudo os que vinham dos subúrbios da capital visitar a família no verão. Na verdade eram pequenas alcovas roubadas às arribas e reclamadas pelo mar duas vezes por dia. O povo não se importava com aquela areia grossa que só descolava à chicotada de toalha, que os pais atiravam generosamente aos pés das crianças antes de entrarem no carro. Também não se queixava dos limos moliços que se enrolavam nas pernas debaixo d’água, que se putrefaziam na areia ao sol, e que escondiam anzóis que de vez em quando pescavam um pé descalço. Até gostava dos pedregulhos, que por qualquer lei natural ou divina só caiam das arribas à noite, e de dia escondiam o xixi, o cócó, o broche e as mamas ao léu. Brincava com a piche preta da lavagem dos barcos que estampava as toalhas e os pés, e que se raspava com as pedrinhas d’arriba antes se calçarem as meias. Orgulhava-se da água gélida que espetava caimbras nos banhistas que se deixavam enganar pelas crianças imunes ao frio e às horas. Cartografava com as canelas os caminhos submersos que levavam às raras planícies de areia e rocha maçia, escondidas no meio dos calhaus afiados. Amava as ondas babadas que mastigavam a terra a dois pés do continente e a três dos incautos forasteiros, que se enrolavam na espuma, braços e pernas ao abandono, levantando-se depois tremeliquentos com muito mais respeito pelo povo daquela terra, que mergulhava nas ondas, que passeava no mar, que saltava nas pedras, que jogava à bola nos limos, e que se enrolava aos beijos na areia grossa e manchada das praias d’Assenta.

A do Sul era a praia das famílias e dos domingueiros. Tinha a estrada alcatroada até ao fundo da arriba e um bom parque de estacionamento. A do Norte era da miudagem da terra; alguns deles adotados, como eu. Era também das mães e das avós que vigiavam as filhas. Entre as duas ficava a dos pescadores. Em cada ponta da praia saíam das arribas braços rochosos que abraçavam o mar a cerca de cinquenta metros da areia, deixando uma pequena abertura para os barcos que iam e vinham da pequena baía. Em meia maré as ondas saltavam os diques e morriam na armadilha, como os bisontes das ravinas. Mas quando enchia, o mar vingava-se e atropelava as muralhas sem qualquer pejo, vomitando os limos na praia de tão bravo. Mas os pescadores conheciam-lhe as manhas e apanhavam-no noutra armadilha. Com mandíbulas de betão armado forradas em vivaldes, os covos escavados na rocha salgada mastigavam as ondas e engoliam as delícias que o mar trazia: polvos, sapateiras, lagostas; o que quer dizer, gasóleo para o barco, um vestido para a mulher, um brinquedo para o puto.

Chegava-se até a praia dos pescadores por uma estrada de pó fino e espesso que descia do topo da arriba, curvava á esquerda, depois à direita, depois à esquerda outra vez, e acabava numa rampa de pedra e cimento que se enfiava na areia. Era nela que os pescadores estacionavam as pequenas embarcações. Dali ao mar eram uns vinte passos; mas de barca eram muitos mais. As pedrinhas e os limos ajudavam os homens a empurrá-las até à espuma que vinha buscá-los ao fundo da rampa. Por cima da rampa ao fundo da arriba havia um mini-vilarejo de cabanas de cana, decoradas com os tesouros que vinham dar à praia: boias de vidro suspensas por cordas; garrafas de variadas cores e feitios; crânios de gaivota e sabe-se lá o quê; latas de azeite e petróleo; e uma que tinha dois escudos com a cruz d’Avis a lembrar um acampamento medieval. Era aí que os pescadores ouviam o relato, assavam o peixe, jogavam à sueca, coçavam o cú, e rezavam antes de partir para a faina.

Atravessei muitas vezes a praia dos pescadores com os amigos a caminho da “lagoa dos amores”, como as miúdas lhe chamavam; infelizmente nunca descobri porquê. Existia lá um rochedo de onde se dava uns belos mergulhos. Mas para isso era preciso escalar as rochas afiadas que cortavam os pés e os cotovelos; claro, com as miúdas a ver aquilo era canja. Só se podia mergulhar numa pequena parte da lagoa, e a pontaria tinha de ser boa, senão partiamos a cara no fundo rochoso dos ouriços. Não houve uma única vez que tenha ido à “lagoa dos amores” sem apanhar uma ferroada nos pés e sair a coxear. Na altura não me apercebi da ironia. Ainda hoje tenho um pico de ouriço enfiado num joelho.

À praia dos pescadores mesmo só fui uma vez, com uns amigos que também eram dos subúrbios lisboetas. Lembro-me que entrámos numa cabanas com um rádio-transmissor e pusémo-nos a ouvir os homens que andavam à pesca no mar alto; o pai dos meus amigos era um deles. Lembro-me também daquela luz do meio-dia que esconde o mar debaixo de um manto brilhante e esbatia-se por entre as frestas das canas, onde o mar voltava a ser azul. Pelas paredes da barraca passavam também os sons metálicos das gaivotas em volta da barca e dos murmúrios fantasmagóricos dos pescadores que de vez em quando se ouviam por entre a estática.

No topo da arriba por cima da praia dos pescadores, ao fundo de uma estrada de terra batida que se enfiava pelo meio dos caniços a uns metros antes de chegar à caserna da Guarda Fiscal, ficava o farol. Uma coisa muito húmilde, sem a imponência dos seus congéneres, mas com um certa nobreza estóica, fruto da sua função e do isolamento a que o dever o obrigava. Tinha cerca de seis metros de altura e ficava a dois passos da falésia. Metade da cal branca das paredes já tinha abandonado o posto e deixava-lhe o peito num equizema aberto à salitre. A base, que lhe chegava até meio, era em feitio de pirâmide. Por cima, em retângulo, ficava a casa da máquina, fechada com uma portinhola de ferro ao topo das escadinhas. A separar as duas metades havia um estreito parapeito que o contornava; mesmo com os calcanhares contra a parede só chegava até à cova dos pés, e sentado só até meio do rabo. Mas sempre dava para contornar o farol deslizando as costas na cal, até ao lado que dava para o mar, e para me abancar a ver as ondas, a ler os X-Men e a ouvir música. Às vezes era interrompido por algum namorado que chegava de carro com a dama e fazia sinal para me pisgar; mas eu dizia: “vão-se foder”. E eles iam. Quando as janelas começavam a embaciar eu ia-me embora.

Lá de cima via-se bem a rampa dos pescadores. Foi aí onde eu parei primeiro nessa noite. Lembro-me de ver muitos lampiões agitados e uma mota parada com o farol apontado ao fundo da rampa. Também lá andava um guarda fiscal, com o seu inconfundível chapéu de cartola, calças comichentas puxadas até ao umbigo, mãos atrás do blusão foleiro, e botas até ao joelho. Vindos da praia escura, subiam pelo foco de luz um grupo de homens esforçados; três a puxar uma rede de pesca e outros tantos a empurrar uma coisa grande enrolada nela. Não discortinei o que era, mas percebia-se que era pesado. Os homens tentavam puxá-la até ao topo da rampa mas desistiram antes de chegar a meio. O da mota desceu para mais perto. Era uma coisa esquesita aquela. Quanto mais olhava mais deixava de a ver. O feitio não lembrava a nada, mas era sem dúvida digno de admiração, uma vez que os homens andavam-lhe às voltas e debruçavam-se a estudá-la. Enquanto eles conversavam e riam, o guarda mantinha-se hirto e sereno, mas também de cabeça curvada. Ninguém parecia ter muita urgência. Estranhava-me principalmente a serenidade do guarda. Pelos vistos os negócios sórdidos dos contrabandistas eram mesmo coisa banal.  Entretanto passou um carro para baixo que parou no topo da rampa. Ninguém se pareceu importar. Dele saíram três rapazes e duas raparigas que se juntaram aos outros em volta do estranho objeto e logo meteram as mãos ao nariz. Depois disso não aguentei mais e tive de ir lá abaixo saber do que se tratava.

Minutos antes tinha-me escapolido pela janela do meu quarto depois dos meus pais retirarem-se para o deles. A minha curiosidade em saber o que realmente se passava naquela praia durante a noite embalou-me numa imaginação maior que o sono. O ressonar do meu pai foi o meu sinal de partida. Abri as persianas e a janela de madeira relinchona muito vagorasamente para não fazer barulho. Aquilo levou-me tanto tempo que quando cheguei ao fim só não me deixei ficar porque para fechá-las era outro frete. Saltei para o pátio e peguei na minha bicicleta montanha. Para não fazer barulho com o abrir e fechar do portão, levantei a montanha à altura da cabeça e passei-a em esforço para o outro lado do muro. A aventura mal tinha comecado e já ia com os braços a arder. Pûs-me em cima dela e fiz-me à estrada com ganas, já nem tanto para o que advia mas para não ser apanhado ali. Por sorte não apanhei ninguém pelo caminho. Deixei encostada ao farol e fui descendo de mansinho estrada a baixo até à praia.

Os meus pais gostavam das praias mais isoladas, rochosas, sem areia nem gente. Era aí que o meu pai atirava o isco ao mar e a minha mãe tirava o sutiã. Quando eu e o meu irmão íamos com eles passavamos o dia a brincar ao Rambo ou ao Predador, a rastejar sorrateiramente pelos charcos e pelo labirinto de calhaus na maré vazia, a ver se conseguiamos apanhar o meu pai desprevenido e dar-lhe um tiro. Mas o meu pai, que tinha andado na selva com uma G3, apanhava-nos sempre antes do golpe final e tranquilamente alvejava-nos com os dedos grossos, sem nunca tirar os olhos do fio, não fosse o peixe picar. Nunca conseguimos matá-lo.

Enquanto descia a estrada lembrei-me desse meu fraco record, mas que até então não tinho sido a contar. Tive que me esforçar ao máximo para avançar sem pressas e evitar os erros táticos dessas tardes de baixa-mar. Depois de contornar a última curva atirei-me para debaixo de um bote velho abandonado ao cimo da rampa, abrigado da luz do holofote ao cimo da estrada.  Dali não dava ainda para perceber o que vinha na rede, mas ouvia-se distintivamente as gargalhadas e as brincadeiras despreocupadas dos bandidos. Saí do meu esconderijo e dei uma pirueta manhosa até às traseiras do carro estacionado mais à frente, de onde haviam saído os outros notívagos. Espreitei através do vidro da bagageira e confirmei que ninguém tinha visto a minha manobra arriscada. Fui-me arrastanto com as costas contra a chapa até ao lado que dava para as ondas. Mal se via a espuma a subir areia no escuro, mas ouvia-se bem alto as pedrinhas a  recolherem ao mar. Estiquei o pescoço devagar entre a janela do passageiro e o retrovisor e foi então que finalmente a vi.

Ao fundo da rampa, agora livre das redes, jazia morta uma tartaruga enorme. Um dos rapazes abria-lhe as mandíbulas com as mãos, enquanto que o da mota apontava-lhe o feixe de luz à garganta, revelando-lhe os dentes que desciam pelo pescoço abaixo. Tinha uma carantonha feia, com uma boca que parecia um papagaio. Não cheguei a saber o que lhe aconteçeu ou como é que ele foi ali parar. Visto que afinal não se tratava de um crime, saí detrás do meu esconderijo e cheguei-me lentamente à frente para a ver melhor. Começei por espreitar entre os ombros dos outros mírones até que um deles reparou em mim e abriu uma fresta no círculo, sem me dar muita importância. O da mota sugeriu que virassem o defunto de pernas para o ar para lhe ver a barriga. Juntaram-se a ele outros três rapazes, prontos a inchar os músculos em frente das raparigas. Não conseguiram à primeira, nem à segunda. À terceira vez até o guarda ajudou e lá conseguiram levantar o leviatã de lado quase meio metro, mas aí o morto queixou-se e eles deixaram-no cair.

Se um dia os mares secarem e alguma espécie animal por cá ainda respire, o cheiro das profundezas acaba concerteza o serviço. Saiu debaixo da tartaruga tal baforada pestilenta que os bravos da noite largaram-na de imediato e deitaram-se aos narizes como se tivessem levado um soco. Na debandada atropelaram-me e caí de cú no chão, quase ao mesmo tempo que a tartaruga. Parecia um côco a rachar. O cheiro azedo soltou-se ainda mais com o baque e alastrou-se como um onda de choque rente ao chão. Debaixo do foco de luz só fiquei eu e o papagaio tristão, de rosto muito velho, e língua de quem morreu de cansaço. A espuma já chegava ao fundo da rampa para levar o defunto que as pedrinhas clamavam.

O vómito saiu-me com uma violência tal que até as lágrimas vieram-me aos olhos. Não tive tempo sequer para me desviar para o lado; foi mesmo em cima da camisola e das calças. Logo de seguida o guarda levantou-me do chão pelos sovacos. Não me disse nada. Levou-me pelo braço com cuidado até ao jeep, estacionado mais acima, e pôs-me no banco do passageiro. Deu a volta pela frente e entrou para o lugar do condutor. Apertou-me o cinto e passou-me um lenço de papel que tinha no compartimento da porta. Arrancou com o carro em direção a minha a casa, sem nunca me pedir direções. Eu aí só limpava as lágrimas e assoava-me. Apesar dos restos de vómito no nariz, lembro-me do cheiro forte dos estofos e da borracha velha. Lembro-me também da noite estrelada lá fora e do feixo de luz que subia e descia nos buracos da estrada. Lembro-me ainda do rádio-transmissor de bordo a transmitir códigos que eu não conseguia decifrar e ninguém parecia responder. Da esfrega que o guarda me passou pela cabeça quando tapei a cara de vergonha. Lembro-me das luzes a acenderam na janela do quarto dos meus pais enquanto eu descia o jeep com o motor ligado. Lembro-me da plaqueta dourada na lapela do blusão do guarda – Díonisio Matacães – a quem não consegui olhar nos olhos quando a minha mãe obrigou-me a pedir desculpa. Lembro-me ainda de me lembrar que me havia esqueçido da montanha encostada ao farol, do lado do mar.”

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